Já estamos na segunda metade de 2026, mas esta primeira que passou foi o suficiente para chegarmos à conclusão que este ano tem sido um dos mais fortes no panorama underground português. A nova geração de artistas do nosso país mostrou um empenho absurdo com os seus projetos, e algumas faixas ficaram no nosso coração não só pela sonoridade, mas também pelo conceito, pela inovação e pelo impacto na comunidade.
AVISO: esta lista está por ordem alfabética, devido à impossibilidade de escolher umas melhores que outras.
“323 NOITES (INTERLUDE)”, HeyRicoo (EXODUS)
Não é de hoje que HeyRicoo se tornou um dos artistas mais promissores do underground e, honestamente, a este ponto vai ser cada vez mais difícil falarmos sobre ele: desde a primeira vez que mencionámos o nome dele, Ricoo foi de algumas dezenas para mais de 4 mil ouvintes mensais no Spotify, alcançando co-signs de artistas tais como Van Zee, Yuri NR5 e Sippinpurpp (que chegou a ser convidado especial do set de Ricoo esta semana no seu primeiro evento EXOESTRAGO, na emblemática Casa Capitão).
Tal dificuldade que referimos vem por um bom motivo: depois de todos os apoios da indústria e, mais recentemente, da entrada do artista na conceituada agência de booking FADED, percebemos que Ricoo já se está a situar confortavelmente no panorama e conquistou, de forma única, orgânica e autêntica, o público e os recursos necessários para crescer de forma ainda mais exponencial. Outro fator que ajudou a empurrar o artista para novos ouvidos foi o lançamento de “EXODUS”, um dos álbuns mais surpreendentes da primeira metade deste ano.
Curiosamente, a nossa faixa favorita deste projeto fantástico foi o interlúdio, “323 NOITES”, que conta com um dos beats mais experimentais e impressionantes que alguma vez tivemos o privilégio de ouvir no underground português (S/O absurdo para o maneru, que ultimamente tem se consolidado como um dos produtores mais extraordinários do panorama e uma referência única quando o assunto é NOVO KUDURO). Neste interlúdio, também ouvimos um delivery mais vulnerável e apaixonado de Ricoo, com melodias lindas e suaves que fazem um contraste potente com a produção inigualável.
“AUDEMARS”, dazed lex & RVI (LUTHOR: Parte 1)
dazed lex é um dos artistas mais criativos do underground português, conseguindo transmitir as mais variadas emoções da forma mais real possível. Depois de meses naquele que parecia um buraco demasiado fundo para regressar à luz do dia, maioritariamente cavado por “semmúsica’tavam*rto” e “palavras de m**”, dois projetos transformadores no panorama emergente graças à complexa densidade conceitual e poder emocional das mesmas, lex renasce mais otimista com “LUTHER: Parte 1”, o ponto de partida daquele que é um dos regressos mais esperados da cultura emergente.
Este pequeno projeto consiste em sete colaborações potentes que vão desde o continente às ilhas, dando destaque a “AUDEMARS” com o artista e produtor RVI, que dá a exata sensação de “I’M BACK” (no pun intended) que dazed lex idealizou desde o início deste recomeço. Além disso, lex faz questão de voltar a relembrar a sua influência irrefutável na comunidade, mostrando novamente a sua capacidade de fazer uma obra extremamente versátil em apenas 22 minutos.
“Chanel Egoïsta”, 1Goshi & Valentino De La Vega (EGOÏSTA)
JUNKIE MONEY volta a ser mencionado: “EGOÏSTA” já foi amplamente falado pelo UNDERBOUNDS (só não leu quem dormiu…) e já se sabe que 1Goshi é um dos membros mais falados do coletivo, nomeadamente devido a este projeto que definiu o potencial do artista. “Chanel Egoïsta” é, de longe, a melhor faixa para introduzir 1Goshi e a sua versatilidade em beats mais experimentais, e juntamente com a participação especial do icónico Valentino De La Vega, a música consegue ficar ainda melhor graças ao contraste incrível de ambos os artistas.
“Jazzadelica”, SUAV (OURO)
Escolher este álbum foi fácil, difícil foi escolher uma faixa, porque “OURO” define SUAV da forma mais autêntica: produção própria, alma e amor, ouro em forma de álbum. Este artista de jazz-blues-indie-hip-hop-soul-mais-alguns-géneros é um multidisciplinar com uma mente simplesmente absurda, sendo um pouco desafiante explicar o quão incrível é a música deste homem. SUAV tem um amor à música que faz cada ouvinte se apaixonar com o seu trabalho, que felizmente já foi reconhecido pela Primeira Linha, uma das maiores agências artísticas do país. Por isso, é normal que oiçam menos o nome dele no nosso trabalho, mas é novamente por um bom motivo.
“kissing as friends”, malik. (cocoon)
Indo para uma vibe mais introspetivo-melancólica, falar sobre malik. e “cocoon” era indispensável: malik. (ou afrogothh) tem feito algumas das músicas mais únicas e sinceras do nosso país, graças à sua sonoridade lo-fi e self-made que o distingue dos vários. Uma faixa que, para nós, é um sinónimo perfeito de beleza e honestidade, é “kissing as friends”, que dá uma facada no coração com a sensação de nostalgia pura misturada com amor e mudança. Outro facto brutal sobre esta faixa é que tudo foi idealizado e produzido pelo próprio malik., fazendo desta uma música única e especial.
“KUDURO CHINÊS”, koi kowaku & littleboy55k
Parece que estamos viciados em NOVO KUDURO, mas estamos mesmo: o artista koi kowaku já é conhecido por criar vibes fora da habitual sonoridade americana e europeia, e desta vez não foi diferente: kowaku convida littleboy55k, uma das maiores referências do NOVO KUDURO, e juntos decidem mesclar culturas e criar o “KUDURO CHINÊS”. Por mais estranho que pareça, a colaboração funcionou perfeitamente: os flows em chinês de koi em cima do beat fantástico de pitchweavr resultou numa das músicas mais inovadoras do underground português, e o feature de littleboy55k é praticamente um cheatcode quando o objetivo é fazer um banger ficar ainda mais banger.
“Monêngue”, Diepretty Mercédes (A Estética da Supressão Vol.2: Deluxe Melódica)
Se há um OG nesta lista, esse OG é Diepretty Mercédes: referência do underground desde 2021, Diepretty não se deixa ser esquecido e relembra, a cada projeto que lança, a sua influência e versatilidade artística. Apesar dos holofotes estarem apontados para o primeiro volume de “A Estética da Supressão”, acreditamos que a faixa-estrela aparece na sequela: “Monêngue” é do mais experimental que pudemos ouvir nos recentes lançamentos de Diepretty “Bonaparte”, muito derivado ao beat inacreditável produzido pelo próprio, que quase parece um estilo “neo-rage” sem grandes 808s mas impossível de não causar moshpit, e pelas barras que melhoram a cada projeto que passa.
“O.G.E.P”, littleboy55k (Kudurations)
Outro artista que tem feito acontecer no underground português, mais especificamente no NOVO KUDURO, é o também membro da JUNKIE MONEY littleboy55k, que lançou em maio o inovador “Kudurations”, que teve a merecida oportunidade de ser falado além de Portugal e Angola: este álbum, que tem sido falado mundialmente devido à sua sonoridade única, tem bangers atrás de bangers atrás de bangers, mas o destaque deste projeto é o instant classic “O.G.E.P”, onde o talentoso produtor Bloodyfranko faz um beat impensável para littleboy55k rimar sobre tanta coisa que até André Ventura foi parte de uma bar da forma mais hilariante possível.
“Kudurations”, juntamente com “EXODUS” e outros projetos mencionados neste UNDER10, são peças-chave quando falamos sobre o coletivo JUNKIE MONEY e o NOVO KUDURO, que tiveram um crescimento que parecia fictício no panorama underground, especialmente quando falamos de um projeto com uma sonoridade tão diferenciada e especial.
“vice”, si!va (si!va)
Outro produtor impossível de ignorar é si!va, um pseudo-feiticeiro cujas poções possuem, religiosamente, samples icónicos de língua portuguesa. “vice” é uma dessas poções mágicas que absorvem todo o mal das nossas atarefadas cabeças através de um beat absurdo que usa um sample do neo-clássico “O Prazer É Meu” do artista Mike El Nite. Apesar desta ser a nossa favorita, o projeto self-titled de s!lva é uma das melhores beat tapes que pudemos ouvir nos últimos tempos, tendo também como faixas-estrela as maravilhosas “amar é” e “tão difícil (sinestesia)” (e todo o resto do projeto, se formos realmente honestos).
“Vinho”, Beyes (ENCEFÁLICO)
Se houve um artista que fez um 360 na sua carreira e identidade artística da maneira mais inesperada possível, esse artista é Beyes: o artista e fundador da MillyCem lançou não um, mas dois projetos muito bem trabalhados este ano. Um desses projetos foi o EP “ENCEFÁLICO”, que mostrou um lado vulnerável do João Pedro de São Vicente, com uma sonoridade mais densa, emocional e crua. “Vinho” é, de longe, a música mais sentimental do EP, com a produção complexa mas suave de Tsubasv e uma das performances mais maravilhosas que alguma vez ouvimos de Beyes.
HONORABLE MENTIONS
Escolher 10 das centenas de músicas boas que ouvimos ao longo do ano foi um desafio enorme, mas aqui deixamos cinco que, apesar de não terem entrado na lista, são definitivamente provas do potencial e talento da nova geração:
- “Excalibur”, saraiva & BENNY BROKER (Coro Dos Marginais)
- “Penso Imenso em Ti”, PróprioSantos & Uno Consultório
- “no’body”, Leyon Moreira & liln4ghtshawty (MEIA NOITE)
- “Shine Like Gold”, sheluvsHUGO & Lopezzi
- “Topo da Town”, phaze

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