
Depois de um início de carreira instável e demasiado indefinido, Henr1que mantém a cabeça erguida e transforma cada tentativa em aprendizagem com “Ânsia de Querer”, o seu primeiro projeto a solo que prometeu surpreender e acabou por superar expectativas.
HENR2QUE: MAIS DO QUE EGO
Pudemos ouvir Henr1que pela primeira vez em “Dois Egos”, um projeto que criou em colaboração com Leyon Moreira, um dos seus melhores amigos. Apesar de sentirmos uma grande vontade por parte do recém-artista, também sentimos algo muito comum num começo de carreira: instabilidade artística e um caminho indefinido. Os versos de Henr1que em “Dois Egos” não foram suficientes para termos noção do seu propósito no panorama underground, havendo algum receio de estarmos perante “mais um no meio de muitos”.
Mas uma coisa é certa: quando a ânsia de querer é muita, ninguém tomba o artista. “Ânsia de Querer” foi mais uma oportunidade para percebermos onde Henr1que se quer inserir neste círculo gigante de artistas com essa mesma ânsia.
Para introduzir com potência e força de vontade, “Somos Dois” conta com uma produção super atmosférica do artista-produtor brenin, perfeita para introduzir este que é o primeiro momento onde os holofotes estão centrados no refrão resiliente de Henr1que, onde refere que está preparado para fazer acontecer e que, mesmo sozinho, conta sempre como dois. A lírica, que se mostra muito mais limpa e trabalhada mas ainda com potencial de melhoria nos flows e na coerência, aborda essa mesma persistência e vontade de fazer a diferença na música portuguesa.
“Maratona” volta a juntar Henr1que e Leyon Moreira naquela que é, provavelmente, a melhor música que fizeram em conjunto: a química amigável de ambos é impossível de negar, mas esta faixa conseguiu estruturar otimamente os pontos positivos de cada artista, neste caso o refrão leve, simples mas catchy de Henr1que em conjunto com a produção e o verso melódico de Leyon. “Maratona” conta ainda com uma outro invulgar que conta com um discurso de uma voz que parece a da influencer Bruna Magalhães (acabada de acordar e esfomeada, se acharem relevante a caracterização da personagem), seguido de uma transição mega suave para a música seguinte.
Tal música, “O Teu Sorriso”, conta com uma produção multidisciplinar que conta com vários elementos interessantes que lembram Jersey Club, slow drill e uma vibe pseudo-y2k diferente do que normalmente ouvimos na discografia de Henr1que que, apesar de curta, já conta com dois EP’s e dois features nos projetos “anti.estético!” do artista holden e “MEIA NOITE” de Leyon Moreira, também já reviewed no nosso blog. Nesta faixa, o refrão do artista deixa muito mais a desejar, mas o verso consegue recuperar um pouco do delivery geral, apesar de estar ainda muito insosso.
Em “Amores Ou Desconhecidos”, Henr1que continua a surpreender e explora uma vibe mais melancólica e orquestral, mas o feature que convida para esta faixa é, sem dúvida, a maior surpresa desta música: Raul Ramos, outro dos melhores amigos do artista, faz aqui a sua primeira performance de sempre e acaba por fazer um dos versos mais promissores que pudemos ouvir este ano. Com um flow consistente e uma lírica honesta e emocional, Raul mostra, em apenas um verso, um potencial extraordinário que seria absurdo não explorar de forma mais profunda e individual, sendo capaz de fazer, junto de Henr1que, a melhor música de “Ânsia de Querer”.
Mantendo a melancolia mas adicionando uma vibe mais dançável, “Ericeira” conta com um verso mais introspetivo e apaixonado de Henr1que, que acaba este projeto de apenas 13 minutos com uma vírgula, dando a parecer que este pode ser apenas uma introdução para um projeto maior e mais aprofundado. Apesar de ser um projeto curto, foi o suficiente para perceber um pouco mais a identidade artística de Henr1que que, apesar de estar longe de definida, existe e deve ser observada com curiosidade.
undereview
“Ânsia de Querer” é uma surpresa inesperada: depois de vários versos pouco extravagantes e com pouca carga pessoal, Henr1que releva uma nova faceta e fez um projeto muito mais autêntico com ideias muito mais densas. Apesar de ter os seus altos e baixos, este projeto já pode ser considerado um “Best Of” antecipado da atual discografia do artista, graças à sua abordagem mais temática, multifacetada e com sonoridades variadas.
Em suma, estes foram os melhores 13 minutos de Henr1que até hoje, e por isso estamos preparados, tanto quanto ele, para continuar a ouvir a sua evolução artística ao longo da carreira que, apesar de recente, tem as suas motivações em dia e um potencial que merece atenção.


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