
Depois de uma pausa de dois anos nos lançamentos, Viaza lança “Inconsciência”, a prova viva de que esse período não foi passado em vão, mas sim a criar aquele que seria o seu segundo EP. Com uma sonoridade que mistura lo-fi e rap cru, “Inconsciência” sustenta-se facilmente com o talento lírico do artista e a produção minimalista que contrasta perfeitamente com a densidade temática do projeto.
“Tudo começa com um miúdo sempre com os fones postos, a ouvir mais os seus ídolos do que os próprios pais. Foi na Antena 3 que, pela primeira vez, teve contacto com o verdadeiro hip hop português: Sam The Kid estava a tocar, e desde aí João Neves desenvolveu o seu conhecimento e interesse pela cultura. Agora, apresentando-se como Viaza, também ele quer pertencer ao movimento que tanto lhe ensinou.”
“INCONSCIENTE… E CONSCIENTE”: O REGRESSO DE VIAZA
‘“Inconsciência” é o meu segundo EP. tive 2 anos afastado com a música mas não completamente parado. Este projeto reflete isso mesmo.”
“Inconsciência” começa com os pés assentes na terra, numa introdução minimalista que consiste em 30 segundos de uma progressão guitarrística acompanhada de um discurso que menciona o neurologista português António Egas Moniz e a sua polémica criação, a lobotomia (ou leucotomia pré-frontal). “Egas Moniz – Introdução” é o nome desta faixa introdutória que funciona como prefácio da música seguinte que se chama (propositadamente) “Lobo-Frontal”.
“Lobo-Frontal” aborda temas atuais e diferenciados, tais como o rebanho metafórico das massas, a dispersão de poderes e a auto-realização. Com o refrão suave e catchy de Evander e a produção do lendário Milton Gulli, esta faixa percorre os confins do lo-fi rap de uma forma honesta e, acima de tudo, humana.
“Fui conhecendo pessoal do meio e tive a oportunidade de trabalhar com pessoas como o Milton Gulli, que já produziu para nomes como Valete e Azagaia.“
Depois de dois anos sem lançamentos, já estava esperado um “Reencontro”: nesta faixa, Viaza desabafa sobre a distância comercial das artes, que se transformou numa reflexão que lhe tirou qualquer dúvida sobre o seu futuro no rap. A vibe permanece melancólica e extremamente chill, com algumas progressões inesperadas que lembram sonoridades fusion e um solo final de guitarra elétrica que, apesar de diferente, deixa muito a desejar na sua execução.
Seguindo com “Prescrição”, ouvimos novos elementos sonoros, nomeadamente o saxofone inicial muito bem colocado, apesar de discreto. Aqui, Viaza brinca mais com a lírica, com versos tais como “Penso mero pensamento que pesa a mente” que contrastam a simplicidade temática com a complexidade rimática. Abordam-se reflexões e pensamentos do artista sobre saudade, rotina e drogas, além do seu bloqueio criativo que ocorreu durante os últimos anos.
Em “Hábitos”, Viaza convida GUSTAVO e Drezy para trazer mais lo-rap com uma vibe old school que não encontramos em muitos projetos atuais, especialmente vindo de um artista tão jovem. É impossível não balançar a cabeça com a ótima produção desta e das restantes faixas de “Inconsciência”, que se mostram maduras e preparadas para o passo seguinte.
Tal permanece na faixa de nome próprio: “Inconsciência” traz um beat que faz lembrar a produção de Sam The Kid nos tempos de “Sobre(tudo)”, e isto é mais elogio que comparação. O refrão prometeu um potencial enorme mas não atingiu o patamar que merecia alcançar, estando muito aquém da performance que se viu em Viaza ao longo do projeto. Apesar disso, a sua lírica recheada não se esquece, e por isso dizemos a Viaza… “Manda as tuas bars”!
“Fui sempre escrevendo e fazendo apontamentos do que via e ouvia, que resultou em temas crus e sem clichês. As músicas têm forte presença de instrumentos tocados ao vivo e a participação de amigos que eu incentivei a escrever e a gravar os próprios versos.”
Depois deste pequeno momento de 14 segundos de conversa com amigos, Viaza abençoa-nos com uma bonus track, “Vivências”, onde junta Gabi, Drezy e Margarida Pereira num mini-cypher que conta com uma produção de fazer cara feia, barras e barras e barras e barras e melodias… e mais barras! Com um final destes, Viaza posiciona-se (de novo) como um artista para se falar no rap português, desta vez com intenções de ficar e fazer a diferença.
UNDERATING
- Lobo-Frontal: 7/10;
- Reencontro: 6/10;
- Prescrição: 6/10;
- Hábitos: 7/10;
- Inconsciência: 6/10;
- Vivências – Bonus Track: 7/10.
undereview
Viaza não é de agora: apesar do hiatus de dois anos, projetos tais como o EP de estreia “Albergaria” já foram amostras suficientes para perceber o talento lírico do artista. Contudo, “Inconsciência” mostra-se um projeto mais consistente com uma temática mais interessante: as ligações entre o título do projeto e as referências, tais como de Egas Moniz logo no início do projeto e Sam The Kid com a sua clara influência nos beats, fazem do projeto uma obra com um diferencial único.
“O meu intuito será sempre inspirar os outros, ou diretamente ou indiretamente a partir das minhas músicas, pelo amor à cultura.”
Alguns pontos a considerar para o artista são a própria performance vocal, que se mostra ainda um pouco inconsistente ao longo das faixas, e uma maior ênfase no storytelling, visto que alguns temas parecem “nadar na maionese” quando abordados de forma tão densa, ficando difícil de compreender alguns versos em termos líricos. Mas tal não acontece o tempo todo, e por isso é fácil concordar que “Inconsciência” é uma obra consciente, consistente e bem conseguida, especialmente depois de dois anos fora das plataformas.


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