Em apenas dois anos, vanish shawty foi de mais um artista pluggnb para um ícone do underground português, com o seu nome a somar já mais de um milhão de streams no Spotify e a assinar um contrato com a emblemática produtora Virgin Music Portugal. Apesar de não ser o primeiro artista underground a ter um “trato feito” com uma das gigantes, o seu estilo musical, que junta elementos industriais, distorcidos e experimentais com letras macabras que apresentam uma postura quase psicopata, nunca pareceu ser um fator agradável para alguma delas.

Contudo, história aconteceu, e até já temos o primeiro projeto de vanish shawty sob o selo da Virgin: “RABBIT HOLE” é o EP que estreia o ano do artista português, que além de se mostrar energético e motivado para fazer acontecer, mostra-se bem acompanhado com produtores de topo, desde ok, produtor de artistas tais como Nettspend e OsamaSon, e o português tsubasv, que já provou ser one-of-a-kind com projetos tais como “Carrossel” com Lutz e “Deixa o Futuro Para Trás” com Lil Noon.

DUPLA FACE: O RABBIT HOLE DE VANISH SHAWTY

Este projeto junta as típicas abordagens agressivas de vanish juntamente com uma produção que se mostrou muito superior aos seus projetos anteriores, dando exatamente essa sensação de “nível seguinte” a quem já acompanha o trajeto do artista. Inicialmente, nostalgia aparece em “ORPHEU 4”, cujo título pode ser inspirado em Orfeu, personagem da mitologia grega conhecido pelos seus talentos musicais. Com produção de qioh, Lambda e tsubasv, esta faixa não é tão diferente do que já estamos habituados a ouvir de vanish, mas o que se segue a seguir à incrível transição é uma experiência completamente inesperada.

“FREE PALESTINE” é uma música de assassinato: com um sample árabe genial e desconfortável, o beat distorcido com o rap sádico em formato storytelling de vanish transforma esta faixa num portal para uma nova dimensão. Não é nada fácil fazer algo tão experimental e ter a coragem para lançar algo tão impressionante, mas é exatamente por isso que vanish está onde está.

Com mais uma transição inesperada (SPOILER ALERT: vai acontecer sempre), seguimos a tentar ficar “GEEKED”, que tem um refrão viciante e um feature surpresa de trux, artista brasileiro com quem vanish já partilhou sons tais como “chop chop” e “tu vais ser furado”. “HI5” é uma rede social, mas também é uma faixa brutal e extremamente energética: o ponto forte de vanish shawty sempre foram os refrões que, mesmo quando agressivos, são altamente fáceis de decorar e cantar; mas o ponto forte de “RABBIT HOLE” é, sem dúvida alguma, a produção experimental e dedicada de todas as faixas.

Apesar da energia extrema e a da qualidade inigualável do EP, as duas músicas seguintes, “BORBOLETA” e “WOMP WOMP”, passam de lado e não adicionam muito mais do que a produção fantástica de tsubasv, hadif10k e bago (sem deixar de parte o mix do talentoso CRIPTA, que se percebeu plenamente ao longo de “RABBIT HOLE”). Mas se acham que a partir daqui, é para baixo, não se preocupem: a seguir ao lindo “INTERLÚDIO” que conta com um sample do icónico discurso de J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica, o vanish vai, quase literalmente, explodir com o projeto todo… desta vez pela positiva.

“MONSTER HIGH” chega forte e em tom de pós-pausa, representando esta separação de “RABBIT HOLE” em duas partes. Os 808s e os vocais melódicos de vanish shawty transformam esta faixa em um boost de energia nesta montanha-russa que parece que nunca acaba.

“Qual Donnie Darko num universo upside down, vanish shawty encarna neste
disco essa dupla personalidade entre a agressividade e a vulnerabilidade,
mantendo uma linha muito bem vincada em todo o alinhamento. De resto,
tem sido essa linha sui generis que o tem distinguido como propulsor de uma
vaga cada vez mais expressiva no panorama nacional.

Aqui entramos na melhor parte do projeto: “ELA DISSE” é, provavelmente, um dos beats mais extraordinários que ouvimos nesta geração de produtores underground, por isso é difícil não dar a tsubasv, o responsável, a coroa. Adicionalmente, o delivery de vanish shawty também está on point e, com esta junção, arrisco-me a dizer que esta faixa está, muito possivelmente, perfeita.

Após a transição etérea de “ELA DISSE”, encontramos vulnerabilidade em vanish… esta é a dupla face: “TENHO SONHADO COM A MORTE” é uma produção atmosferico-melancólica onde JWADE e tsubasv pegam nesta “segunda voz” de vanish shawty e transformam um pseudo-psicopata em beleza e fragilidade. “FINN” é um double-entendre entre fim e o protagonista de “Hora de Aventura”, onde vanish desabafa e dedica uma mensagem honesta à “princesa”, mostrando completamente esta segunda face.

Mas não acaba por aí: “CELLARDOOR” é uma volta e, simultaneamente, uma revolta. Aquilo que parecia um final em coro, sem beats e sem distorções, foi apenas um completo disfarce daquela que sempre foi a face familiar de vanish, a face agressiva e sádica, macabra e obscura. Mas quando deixamos os 808s e ouvimos o que ele realmente está a falar por cima da distorção, é quase como se a segunda face estivesse ainda a falar: no final de contas, ambas sempre estiveram lá. Mas vanish ainda não está preparado para soltar tudo, daí as suas últimas palavras serem emblemáticas: “Eu sei que um dia ainda vou falar do que sinto.”

undereview

Estou absurdamente surpreendido com a qualidade de “RABBIT HOLE”: a produção, desde os beats, ao mix e às “simples” transições, está fenomenal, e dou os meus maiores props a tsubasv que, sem ele, o projeto não teria o impacto sonoro que teve. Além disso, o delivery de vanish shawty manteve-se fantasticamente constante, com uma energia singular que este subgénero nunca teve no underground português.

Este projeto está tão bom que grande parte das faixas, como “ELA DISSE”, “HI5” e “TENHO SONHADO COM A MORTE”, são facilmente das melhores músicas da discografia de vanish. Tal qualidade é incrivelmente difícil de alcançar, especialmente no estilo musical do artista, mas “RABBIT HOLE” conseguiu superar todas as expetativas e acreditamos que é, de longe, o melhor disco de vanish shawty até agora.

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