
malik. é uma lufada de ar melancólico: a sua melódica voz penetra-se numa produção etereo-experimental de forma a transformar os seus sentimentos em obras de beleza inexplicável. “cocoon” é o seu mais recente lançamento que, tal como os seus restantes projetos tais como os álbuns “galatea” e “nyx”, conquistou os ouvidos dos ouvintes com a sua honestidade pura e sonoridade lo-fi.
I’LL BE HONEST: “COCOON” FEELS LIKE HOME
“bedside” representa de forma simples a sonoridade geral de “cocoon”, com a produção atmosférica de malik, juntamente com o talentoso produtor maneru, e as suas harmonias vocais obrigatórias. De início, sente-se uma pequena confusão sonora com o sintetizador repetitivo, mas a voz serena do artista a cantar sobre memórias e amor coloca-nos em casa.
A nostalgia surge em “needs”, uma faixa acústica que mantém a vibe melancólica e etérea do projeto, contando ainda com um sample lírico do clássico “Close to You” de Frank Ocean, artista ao qual vemos uma imensa influência para a sonoridade e atmosfera de “cocoon”. Vale a pena salientar que “cocoon” é um projeto que foi quase totalmente produzido por malik, mostrando a sua versatilidade artística e vontade de explorar amplamente os dois lados do booth.
O acústico lo-fi (ou lo-coustic) permanece no belíssimo “kissing as friends”, uma obra que aborda um tema cauteloso para qualquer jovem apaxionadamente confuso com as situationships da vida. “kissing as friends” aborda a vontade de mudar uma pessoa que não se encontra na mesma página apesar da clara química envolvida, talvez pelo medo ou pela recusa de compromisso, através de um delivery excelente de malik tanto em termos vocais como líricos.
Só uma mente exploradora consegue fazer uma transição tão chocante como a de “enough”: aqui ouvimos a mesma vibe lo-fi a transformar-se, como por magia, em um jersey club com elementos de plugg e trap sobre mudança e crescimento pessoal. Apesar da ampla abordagem sonora, a pós-produção não aguentou os diferentes estilos, deixando a faixa um pouco abafada, mas não se nega a criatividade absurda de malik.
O chorus e o reverb voltam a vencer em “can’t you see”, que regressa às origens sonoras de forma suave e nostálgica e volta a dar destaque ao que malik sabe fazer melhor: cantar sobre as suas emoções. O seu épico final, que contou ainda com um solo final daquilo que parece soar a uma guitarra com overdrive, dá um charme essencial para uma experiência auditiva muito mais agradável, sem esquecer a inacreditável transição para a faixa final.
“kaleidoscope dreams (world)” entra em modo aceitação, com malik a perceber que, no final de contas, há coisas que não mudam e devemos crescer e amadurecer com ou sem aquilo que queremos. Apesar das harmonias fantásticas das inúmeras vozes de malik, algumas partes estão desafinadas e causam um “cluster” vocal desagradável. Sendo esse um dos poucos pontos fracos de “cocoon”, percebe-se facilmente o talento e potencial de malik, que fez um ótimo trabalho a fazer um projeto sentido e com propósito.
UNDERATING
- bedside: 7/10
- needs: 7/10
- kissing as friends: 8/10
- enough: 6/10
- can’t you see: 8/10
- kaleidoscope dreams (world): 5/10
undereview
“cocoon” é uma transmissão sonora pouco explorada em Portugal, dando uma sensação de algo novo mas familiar: ouvem-se claras influências conceituais, sonoras e líricas de projetos tais como “Blonde” de Frank Ocean e “JAMIE” de Montell Fish, que foram enigmáticos para esta nova wave lo-fi melancólica, honesta e nostálgica. “cocoon” aborda mudança, crescimento e sensações que toda a gente sente pelo menos uma vez, deixando a experiência auditiva muito mais presente e interativa.
malik é um artista nato que tenciona deixar a sua marca nas pessoas e não apenas produzir e cantar o que vale, e tal não deve ser deixado em vão. Os artistas são tantos que nunca conseguiremos ouvir tudo, mas malik faz questão de fazer a diferença de forma a não ser deixado de parte, e “cocoon”, apesar de ter os seus pontos fracos, é mais uma das provas de que temos aqui alguém para prestar atenção.


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