Depois do lançamento de “Sujooo”, um projeto que demonstrou todo o potencial do artista neo soul SUAV, “OURO” nasce de uma necessidade de cantar para Portugal. SUAV é homem de várias vertentes, e “OURO” é mais um projeto onde produz, escreve e canta os seus viveres e verdades, mas desta vez expressa-se de forma mais ampla com ainda mais referências musicais a não perder nesta experiência sonora única.

“Suav é um projeto musical feito a partir da diáspora portuguesa: nasce da necessidade de vestir New Wave R&B na língua de casa. SUAV descreve-se com uma mescla improvável de Mac Demarco com Rap Tuga: linhas de baixo que dançam o compasso, swing e jinga; rhodes e guitarras psicodélicas; como se o neo soul tivesse nascido na saudade. Letras que às vezes choram, às vezes dançam. Flow e feeling. Melancolia e sóooce. Sujooo foi o primeiro capítulo, Em Agosto de 2025, voltou a casa. 2026? OURO.

Oração ao Universo de Regresso à Origem: De Longe, de SUAV

“OURO” começa com “Ouro”, um começo agradável que nos prepara para um projeto inesquecível com a típica sonoridade de SUAV, mas melhorada. É possível que SUAV esteja nos seus “Melhores Dias” como a faixa seguinte, onde relembra tempos complicados e transforma-os em vibes que nos fazem mexer a cabeça em modo “reflexão”.

As vibes e grooves trazidas por “Vais Onde” complementam-se perfeitamente com a lírica única de SUAV. Desde “Sujooo”, já se sabia que a caneta de SUAV é peça de museu, por tal “OURO” nem tinha grande espaço para superar expectativas, visto que já era de se esperar um projeto ótimo de SUAV. Mesmo assim, o artista soube como surpreender… outra vez.

A mistura lo-fi rap mantém-se em “Melhor Clima“, onde SUAV aborda temas como o karma e e confusão mental de uma vida adulta ocupada. Um dos pontos fortes do artista é a sua habilidade de se expressar sobre qualquer tema, em qualquer beat. E “Pai” também mostra isso, mas com uma perspetiva ainda mais incomum: SUAV transforma uma dor parental numa justificação a quem sofreu no ponto de vista de quem fez sofrer, num instrumental introspetivo que transmite a exata sensação de desabafar assuntos difíceis.

“Suave” vem de SUAV ou SUAV vem de “suave”? É esse o “Dilema”: esta faixa inspira neo soul mas expira rap, sendo essa a especialidade da sonoridade do artista. SUAV mora na Austrália, e talvez por isso é que menciona o facto de o estarem a ver “De Longe”: a inveja é inimiga da comunidade, e tal teve de ser falado por SUAV, que critica a moral de artistas que nem um álbum lançaram, mas encontram-se sempre preparados para falar de quem faz.

Outro tema bem falado em “OURO” é o fingimento da indústria musical: “A Mais Badalada” é mais uma crítica para o meio profissional da música, que procura cifrões e refrões do mais badalado que há, mas como SUAV é “mau ator”, só é capaz de mostrar uma realidade própria fora de amores e dores filtrados para o comercial.

O primeiro convidado de “OURO” é uma surpresa inesperada: Luís Ramos, O Cravo De Tunes, transmite palavras fortes e penetrantes em “Fardo”, a faixa que respira o nosso fado português com vontade e beleza que só “tugas” sabem fazer.

‘”OURO” é um disco que vive o país como batida de fundo, vive o país na palavra e na memória. Que se auto-declama, que se dá a conhecer pela palavra e melodia como uma carta em aberto tingida de café, cigarro e suor. Um disco em grande parte auto-biográfico, que conta também com temas que abordam identidade e temática social através de personagens como veículo narrativo.

“Vai Dar” são as duas palavras mais ditas por quem acredita, começa e faz acontecer. SUAV muda o espírito instrumental e canta a sua sentida lírica juntamente com o parceiro de longa data Safari, que sempre se mostrou um dos artistas que não tem medo de ser parte da história da música portuguesa.

Saudade é uma palavra unicamente portuguesa, e “Terra do Fado” é a faixa que a representa perfeitamente. Apesar de emigrante, SUAV é português e não tem medo de dizê-lo e mostrá-lo. Mostra-se mais melódico ainda em “Alecrim”, um desabafo sincero e impactante sobre esta vibe que é a sua maneira de esquecer o mal nos tempos difíceis.

“Jazzadelica” tem o título mais óbvio possível: o groove e flow singular de SUAV colocam muitos “artistas” em cheque-mate, especialmente com o storytelling estrondoso desta faixa que aborda riqueza, inveja… e a junção das duas nas situações mais caricatas.

Parece que o fim se aproxima com “A Mais Bela”, uma fantástica dedicação de amor para a donzela de SUAV, Nicole, que já foi mencionada no álbum anterior “Sujooo” numa faixa que, obviamente, se chama “Nicole”. Apesar de ser a música mais curta do álbum, claramente tem o maior sentimento.

“O Meu Nome”… é UNDERBOUNDS, mas é de SUAV que temos de falar: esta faixa é prova da versatilidade artística do artista, além de mostrar a sua dedicação incansável quando o assunto é fazer um projeto de qualidade. E para acabar com chave de “OURO”, parece que entramos num álbum do Kendrick Lamar com um beat alucinante, mas depois de ouvir uma lírica só do SUAV, não houve dúvidas: depois de mais uma caneta gasta a escrever honestidade e beleza, percebemos que “OURO” é mais do que um álbum, mas sim uma obra-prima.

undereview

“Sujooo” é um projeto muito bom de SUAV, mas o UNDERBOUNDS conhece o potencial dos artistas e nós sabemos que não era por ali que SUAV parava: “OURO” foi uma surpresa nitidamente esperada que teve as suas supresas inesperadas. Desde as inspirações musicais que vão desde o neo soul ao fado, este álbum conseguiu atingir um objetivo difícil: ser uma obra de densas dimensões, variados temas e gigante qualidade.

“OURO” é, claramente, o melhor projeto de SUAV e uma linda representação do seu amor ao nosso país, mesmo estando longe dele. Quando o coração bate forte pela língua portuguesa, é porque mesmo em Marte somos de um único sítio. E não há ouro que compre o amor pela Terra Nostra.

Leave a Reply

Discover more from UNDERBOUNDS

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading