
Adler Jack sabe perfeitamente como surpreender: desde músicas sobre o Vasco Palmeirim e maionese em farturas, a discografia do artista de Coimbra já é de invejar, com projetos emblemáticos tais como “Ka-Chow”, “Album” e “B-Sides and Old Tracks”. Este ano, depois de quase dois sem lançamentos, Adler Jack finalmente nos presenteia com “Flor da Pele”, um álbum com extensa versatilidade sonora e momentos que deixam qualquer ouvinte de boca aberta.
O “Flor da Pele” foi um álbum que criei durante o verão de 2023 até ao verão de 2024, sendo que uma ou duas faixas foram começadas antes deste intervalo temporal.
FAIXA-A-FAIXA!
“…like a toucan’s beak!” é um grito de celebração: Adler Jack está de volta, e com uma sonoridade ainda mais dinâmica! A faixa inicial de “Flor da Pele” tem mais de 6 minutos de duração e mais de 5 partes distintas, desde uma simples gravação de conversas hilariantes com amigos (que lhe chamam de “Tucano”), a produções eletrónicas e acústicas, o uso de samples fantásticos, até mesmo a um solo de bateria que confunde o ouvinte comum, mas fascina o músico.
“Antes de ter iniciado o álbum eu não costumava usar samples, mas lembro-me de estar a chillar com amigos a ver uma data de vídeos no Youtube a desconstruir o sampling de bué artistas e de ficar completamente obcecado pela forma como grupos como os The Chemical Brothers, os The Avalanches e os Daft Punk samplavam cenas. Abriu-se um universo diante de mim, tive logo de bazar desse hangout para ir para casa fazer sons.”
Em “Trinkets”, parece que entramos num videojogo ou discoteca dos anos 2000. Com uma produção inacreditável que usa um sample da “Nothing That Has Happened So Far Has Been Anything We Could Control” dos Tame Impala, esta faixa é uma das tantas provas que teremos do talento e habilidade musical de Adler Jack.
Alguém quer uma cereja? É impossível não mexer o corpo ao som de “Maraschino Cherry”, que quase parece um clássico de EDM dos anos 90, mas não… é só o Tucano a fazer das suas. Num tom mais calmo (mas igualmente dançante), entramos em modo “Aurora” com a faixa seguinte, que entra por um ouvido e fica constantemente na nossa mente a dar-nos motivos para sermos mais felizes e irmos a mais festas mexer as ancas (ou sou só eu a enlouquecer depois de ouvir os gritos e efeitos sonoros pseudo-macabros no final da música?)(não consigo dormir…)
“A Aurora parte da Girls & Boys dos Blur. Muitas vezes até partia dos samples, mas, depois de já encaminhar a faixa, percebia que já nem estavam a fazer grande coisa lá e apagava-os – acho que isso aconteceu na Aurora.”
“Iris” é uma música exótica que conta com mais uma produção fantástica ao longo da faixa, dando destaque aos acordes majestosos da guitarrista e produtora Carolina Miragaia.
“Lembro-me também que a Maraschino Cherry era a minha tentativa de criar a música que mais queria ouvir quando estivesse numa festa, e a Iris era a minha tentativa de criar a música que mais queria ouvir relaxado ao Sol. Hoje em dia talvez tenha perspetivas um bocado diferentes em relação ao que quero ouvir numa festa ou deitado ao Sol, mas é fixe que num certo momento da minha vida tenha cristalizado numa música a minha idealização desses momentos.”
O mood fica completamente diferente quando ouvimos “Eldena”, um misto de muita coisa: muita voz, muita cultura, muita experimentação, mas ao todo uma experiência autêntica que se destaca em “Flor da Pele”. “Starry Essence” parece uma música roubada de algum projeto escondido do Frank Zappa. É preciso dar mais algum argumento para ouvires este single incrível?
“Lembro-me que a Starry Essence era um trabalho da escola. Já nem sei bem qual era o trabalho, só me recordo que fiquei completamente ao lado do que me foi pedido, mas que ao menos tinha feito ganda som – palavras do meu professor.”
Aquilo que parece ser um interlúdio acaba por ser uma música perfeita para uma perseguição policial: “Walls of Jericho” é uma surpresa fenomenal com um contraste de outro mundo, podendo até ouvir um efeito sonoro do Super Mario a ser usado na produção extraordinária desta faixa.
Mas o UNDERBOUNDS sempre deve ter uma faixa-estrela para cada álbum que ouve, e para “Flor da Pele” não é diferente: a vencedora é “Long Island Iced Tea”, onde Adler Jack brinca flawlessly com o sample do “Road, River and Rail” dos Cocteau Twins e faz uma obra digna de estar na lista das melhores músicas que ouvimos no nosso blog. Uma palavra: genial.
Para terminar bem, os 8 minutos de “Mensagem Engarrafada” passam num instante, com uma experiência sonora com influências na música ambiente, que mais tarde se transformam numa mensagem instrumental de despedida, não de um “Adeus”… mas de um “Até Já”.
“A receita do Flor da Pele é basicamente essa: samples acelerados e recortados de músicas dos Cocteau Twins, dos Beach House ou de outras coisas à toa; camadas de breakbeats de músicas de Soul e Funk dos anos 70 ou de literalmente qualquer outra faixa com algum momento de percussão isolada; basslines firmes, melodias, arpejos e layers de efeitos vindos do Minilogue XD; no-input mixing; 303s bem ácidos… Mas o sampling é mesmo a parte mais importante, e eu samplo literalmente qualquer coisa! Desde soundtracks de Bollywood até Stereolab.”
O MAIS:
A experiência sonora que Adler Jack nos deu em “Flor da Pele” é simplesmente fenomenal: a produção experimental, mas concisa; o uso fantástico dos samples; e o próprio conceito que, apesar de alterando ao longo do processo criativo, não deixou de fazer sentido para o projeto.
“Numas férias em Vilamoura com a Vert Gum lembro-me de estabelecer que queria fazer um álbum de música de dança, e as faixas iniciais foram efetivamente nesse sentido. À medida que as fui concluindo percebi que faltava alguma variedade ao álbum e foi assim que surgiram os momentos mais tranquilos.”
O MENOS:
Nada a dizer. Banger atrás de banger.
UNDEREVIEW
Adler Jack já sabe que não faz música, mas sim experiências. Não vale a pena falar tanto da parte técnica de “Flor da Pele”, quando se ouve e soa lindamente nos nossos ouvidos. A emoção envolvida neste álbum de regresso faz com que nenhum conceito musical precise de ser referido, algo neste projeto transmite um tom de paz, felicidade, uma sensação boa que se sente… na flor da pele.
the big 4:
- Long Island Iced Tea (10/10)
- Mensagem Engarrafada
- Starry Essence
- Maraschino Cherry
“Fiquei super contente com o Flor da Pele, mas não quero cair no erro de fazer o mesmo álbum duas vezes. Já ando a explorar novos processos de criação, novos temas e novas fontes de inspiração para o próximo disco. Tenho vários projetos nas mãos, alguns a solo e outros colaborativos. Ainda em 2025 devo lançar coisas novas ou estar presente em lançamentos de outras pessoas. Além disso, tudo indica que 2026 será um ano tão ou mais produtivo do que este!“
Com tanta influência, desde LCD Soundsystem, Frank Zappa, Aphex Twin e outros artistas de referência na música ambiente, eletrónica e afins, a singularidade de Adler Jack mantém-se intacta e capaz de fascinar qualquer pessoa.


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