
YuungBritish não é artista de hoje: com cerca de 4000 ouvintes mensais no Spotify, é conhecido pela sua vontade assídua de experimentar géneros e inovar a sua sonoridade com projetos como “Cicatrizes” e “Direção Porto”.
Tal tese é defendida com unhas e dentes no seu mais recente álbum “Isto É Cultura”, um projeto de trap experimental com influências dos mais diversos artistas, desde o rapper Travis Scott ao icónico Pedro Mafama.
Cultura é experiência: A primeira metade de “Isto É Cultura”
O álbum começa forte com a introdução de mesmo nome: “Isto É Cultura” é trap puro e aborda o tema de persistência e versatilidade na sua arte. Sendo o ponto de partida do projeto, logo no início encontramos uma mensagem contrastada de mudança e, ao mesmo tempo, respeito e abraço à cultura. E isso apercebe-se não só na parte sonora do álbum, mas também na visual:
“A capa do álbum representa uma mulher indiana no casamento, uma fase que toda gente espera ter, mas que mesmo assim a cara dela está triste ou até mesmo pensativa, o que acaba por ser o tema das músicas em geral.”
“Maluco” fala de flex e, como o título diz, de loucura: um flow experimental, com semelhanças de sons de artistas como LON3R JOHNY e Yeat, valorizado pelo beat potente com um final espacial que, sem dúvida, valoriza imenso a faixa.
A seguir, em “Ilusão” YuungBritish brinca com um autotune excessivo tanto nos vocais principais como nos adlibs reverberados que dão uma sensação quase “extraterrestre” à música. Os pontos mais altos de “Ilusão” vão desde a primeira menção de Marrakech em “Isto É Cultura”, devido à próxima relação que YuungBritish tem com a cultura marroquina, o uso de violinos e, de novo, o final de sintetizador tão bom quanto o da faixa anterior.
No início de “Memória”, percebe-se automaticamente a grande semelhança (talvez até influência) com a introdução de “LEMONHEAD” de Tyler, The Creator, mas que depois é logo refutada com a batida cativante e experimental que dá vibes influenciadas pelo artista português Pedro Mafama.
“Neste álbum, embora tendo como género principal o trap, decidi ir fora da caixa em termos visuais e sonoros em algumas músicas. Este álbum nasceu também das influências de ABHIR, Travis Scott e Pedro Mafama.”
“Duas Caras” é uma faixa que celebra a persistência de YuungBritish na sua vida pessoal e profissional, mas é direcionada a um sujeito: uma pessoa ligada à sua vida que não sai da mente dele, mas aparecendo com duas caras diferentes, algo que Yuung não procura devido ao seu foco nos seus negócios individuais e de família.
Para não deixar YuungBritish sozinho, aparece mais um Yung em “Jovem Promessa”, mais especificamente o artista angolano Yung Sílvio para fazer um refrão diferente sobre o percurso díficil mas resiliente para o alcance dos objetivos e metas de ambos os artistas.
O amor paira no ar: a segunda metade de “Isto É Cultura”
Na segunda metade de “Isto É Cultura”, juntamos uma produção acústica com uma vibe hip-hop alternativa acompanhada de uma mensagem mais amorosa e sentimental em “Fim da Noite”, faixa onde Yuung fala para uma pessoa com o qual ele se envolve, mantendo também a sua noção de que nem tudo dura para sempre e deve-se ter cuidado até nos momentos mais felizes.
O amor continua a pairar em “Inverno”, uma faixa onde YuungBritish percebe o quão especial é a situação amorosa onde ele se encontra com a pessoa, tal que ela, quando chega, “passa o inverno”. Ao mesmo tempo, foca-se a ideia de que o seu foco na sua arte e cultura deve ser a prioridade em qualquer momento.
A saudade é rainha em “Acordado”, música com um instrumental mais melancólico onde Yuung teme um amor falso e temporário.
Do nada, faz-se um switch como se estivéssemos “Sem Tempo”. Desta vez, Yuung chama mais um artista angolano, desta vez Yun Sxc7, para fazer um trap curto mas forte cheio de temas entre flex e resiliência que, mesmo assim, não o faz deixar de pensar na pessoa amada.
“Inveja” é a faixa mais experimental de “Isto É Cultura”: é onde YuungBritish fala com a sua “Habibi” num tom de mudança e abraça totalmente a fusão da língua portuguesa com o Raï, um género popular argelino muito presente em Marrocos.
“‘Inveja’ é onde vou extremamente experimental, pois é onde abraço uma cultura muito chegada a mim (Raï Marroquino) e a cultura árabe no geral.”
Aquilo que chamamos de “fechar com chave de ouro” é aquilo que ouvimos na música final “Eu Prometo”. O tema de mudança está mais do que vivo nesta faixa e YuungBritish faz uma promessa desafiante para a pessoa à qual dedicou toda esta segunda metade de “Isto É Cultura”. “Eu Prometo” é a prova de que uma simples faixa com voz, guitarra acústica e uma mensagem impactante pode ser o suficiente para terminar um álbum tão experimental de forma perfeita.
UNDEREVIEW
“Eu Prometo” é onde prometo não mudar e continuar a ser o mesmo, mas que acaba por não ser verdade porque quando o álbum volta à música inicial, vemos que ‘Tou sempre nesta vida, bro nunca parei’ (“Isto É Cultura”)”
Já sabíamos que YuungBritish não fazia apenas música, mas dava experiências sonoras, desde a “Cicatrizes”, e “Isto É Cultura” foi uma versão expandida do potencial que ele tem no mundo da arte. Contudo, apesar da grande variedade de géneros e sons junto de mensagens desde o flex ao amor à ideia de mudança pessoal, sentimos muita falta de consistência vocal e na produção ao longo do álbum.
THE BIG 4:
- Eu Prometo
- Acordado
- Inveja
- Memória
Ouvimos alguns deliveries e versos mais fracos, mas isso mostra que isto é apenas o início e o futuro é certo: ao longo dos projetos, encontramos evolução em YuungBritish e ainda há muito a criar e a experimentar na sua carreira. E nós estamos mais do que preparados e atentos para presenciar o seu crescimento!


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